domingo, 15 de novembro de 2009

Cecília...

Aquela dor jamais sairia de seu coração por mais que ela tentasse deixar o passado para trás, aqueles dias solitários naquele hospital pareciam não ter fim, ficava olhando aquele teto branco o dia todo sem ter noção do que acontecia lá fora, apática, triste, com vontade de gritar a sua dor para o mundo, mas o repouso era o mais importante a fazer naquele momento para que seu corpo pudesse ter tempo de responder aos ferimentos físicos além, é claro, da pequena Beatriz que ainda estava dentro dela como um milagre, era um pouco de Xavier que ela carregava em seu corpo.

Os pais de Cecília demoraram a chegar, eles estavam de férias e até serem localizados pelo hospital e conseguirem chegar foi quase uma semana. Os amigos estavam distantes, era pura solidão entre as paredes daquele quarto. Xavier não lhe saía da cabeça, a saudade, a dor, o vazio era muito grande, eles estavam juntos há muito tempo, desde a faculdade. Ela o conheceu numa típica festa para calouros, o ano era 1990, Xavier estava junto de outros amigos de classe na festa e como era um dos mais tímidos do grupo os rapazes decidiram empurrá-lo contra as garotas e ele literalmente tropeçou e caiu nos braços de Cecília, uma cena ridícula e cômica, mas ela não pode deixar de rir diante daquela situação, pegou o rapaz pela mão e o levou para a pista de dança e desde então eles estavam juntos.

Ele estudava Administração e ela acabara de entrar para a faculdade de História. Era pura magia, o primeiro baile, o primeiro beijo, a garrafa de vinho... e assim começou o romance dos jovens universitários. A universidade era grande, mas eles sempre davam um jeitinho de se encontrarem, as vezes para o almoço, as vezes na saída das aulas. Moravam em lados opostos na cidade, mas isto não era nenhum empecilho para não se verem. Mesmo em cursos diferentes passavam os finais de semana juntos estudando e sempre que possível aproveitavam os intervalos para namorarem um pouco.

- Mamãe, estou escondida, vem me procurar vem!

- Beatriz, onde você está? Estou levantando para procurar você, cadê? – e Cecília levantou-se e foi ao encontro dos dois brincalhões no meio das flores.

- Cecília, me ajude, acho que perdi a Beatriz, você ouviu alguma coisa? – perguntou Felipe dando continuidade a brincadeira da pequena e fazendo de conta que não a estava vendo, mesmo diante dela que tentava se esconder.

- Felipe, precisamos achar a Beatriz se não os pássaros vão comer toda a torta de maçã que eu fiz para ela!

Foi à deixa para a garota que se levantou e saiu correndo e gritando: - não, não, a torta é minha...- e antes que ela falasse mais alguma coisa, Cecília a pegou nos braços e a encheu de beijos brincando com ela no ar rindo da situação em que Beatriz se encontrava, com a roupa e as mãos todas sujas por se esconder junto ao chão. Os três estavam voltando para a casa para tomarem o chá da tarde e comerem a torta de maçã que Beatriz amava, como o pai.

Felipe era um dos médicos do hospital onde Cecília ficou internada logo após o acidente. Ele a conheceu em uma seção de fisioterapia para a perna que estava lesada devido à batida e começaram a conversar. Ela falou sobre o acidente, como tudo havia acontecido e que não se lembrava de como havia chegado lá, mas dizia que a dor era muito intensa na região da perna direita. Ele solicitou algumas radiografias e começou a passar em seu quarto para ver como as coisas estavam progredindo e Cecília foi deixando as coisas acontecerem. Quase um mês depois, ela saiu da internação com a saúde quase restabelecida e voltou para a casa dos pais para poder cuidar da gravidez enquanto ela ia se desfazendo das coisas de Xavier.

Felipe continuou a manter contato mandando cartas de vez em quando e às vezes até telefonava para saber como ela estava. Cecília achava um tratamento muito natural de um médico, mas Felipe sabia que ele queria algo mais, mas precisava dar tempo às coisas.

Beatriz nasceu muito bem, muito saudável e linda, uma menininha de cabelos castanhos escuros, muito branca e miúda, ela preencheu literalmente e vida de Cecília nos primeiros meses que resolveu se dedicar integralmente a filha para ajudar a esquecer um pouco as dificuldades vividas até então, até que uma amiga, Edith que mora em Provance veio visitá-la e perguntou?

- E o tal médico, ainda se “preocupa” com você? – perguntou Edith com um tom provocativo.

- O que você já está insinuando heim? Ele foi apenas cuidadoso comigo enquanto estive naquele hospital, só isto! Me ajudou na fisioterapia, mandou algumas cartas, telefonou algumas vezes e só!

- Você acha mesmo que foi só isto? Ele nem é fisioterapeuta ele é ortopedista! Fazer uma consulta é uma coisa, mas participar das suas seções de fisioterapia, hello, ele estava de olho em você!

- Você é louca mesmo, acha que aquele médico realmente estava pensando em outra coisa além da minha perna?

- Acho que no corpo inteiro querida! – respondeu Edith abaixando a cabeça para rir. – Porque você acha que ele mandou um telegrama no nascimento da Beatriz, se você já estava bem quando saiu? Ele ligou algumas vezes para você e aposto que você nunca ligou de volta para agradecer a dedicação não é? Eu sei que tudo foi muito duro, traumático mesmo, mas preste atenção será que não vale a pena dar uma chance ao destino? Ele está batendo na porta há algum tempo, de repente pode parar de bater!

- Você é louca mesmo!...

E elas continuaram a falar sobre amenidades, Cecília já estava de apartamento novo em Paris para começar uma nova vida com Beatriz ao seu lado, após seis meses ela colocou a pequena na escola e voltou para o trabalho na universidade. Dois dias após seu retorno ela recebeu dois telegramas, um era da Polônia, de Petrus, um antigo pretendente do passado querendo saber como ela estava e que provavelmente iria passar alguns dias em Paris no próximo mês, ela achou bem estranho aquilo, como ele sabia que ela estava de volta ao trabalho? Será que era somente coincidência? Pegou o telegrama e colocou-o na gaveta de sua mesa. O outro vinha da Provance, era de Felipe avisando que estaria em Paris na sexta-feira para um curso e gostaria de saber se seria possível vê-la e conhecer Beatriz. Ela também achou muita coincidência este telegrama logo após seu retorno ao trabalho, mas ela ficou contente com a visita. Ponto para Edith.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lavanda sem perfume.

Era final de tarde, o vento ainda soprava quente sobre os lindos campos de lavanda, o mês de julho era o auge da estação, os campos da Provance estavam repletos daquela flor de tom lilás azulado e os produtores estavam muito contentes, afinal a colheita deste ano seria um recorde o que compensaria a baixa produção no ano passado.

Cecília estava ali parada sentada numa espreguiçadeira próxima da pequena casa de pedras alugada para as férias observando a imensidão daqueles campos e os movimentos que as flores faziam acompanhando o vento, parecia um balé perfeitamente ensaiado, assim que o vento passava as flores tombavam e retornavam ao ponto de partida de maneira graciosa. Cecília tinha verdadeira paixão pela Provance, aprendeu a apreciar estes campos ainda pequena, seus avós a levavam para conhecer as plantações de flores pela região da Provance, mas somente agora depois de muitos anos, ali parada é que ela podia ver e entender porque esta região foi tão retratada pelos impressionistas do século passado. A beleza dos campos era estonteante, as plantações de lavanda tinham o formato de cilindros semi-enterrados que serpentavam a perder de vista, do outro lado era possível avistar as plantações de trigo iluminadas pelo sol do entardecer e que refletiam um campo dourado maravilhoso e de um lado ou de outro, era possível ver algumas montanhas bem verdes que interrompiam a linha do horizonte.

As risadas da pequena Beatriz a trouxeram para o mundo real, ela podia ver o marido Felipe brincar com a pequena no meio das flores onde ela se escondia, mas ele a achava e lá iam os dois novamente, e Beatriz sorria alegre e soltava seus gritinhos no meio do campo. Ela já estava com cinco anos, o que para Cecília era um verdadeiro milagre ela ter nascido após o acidente logo no começo da gravidez que deixou Beatriz, mas levou Xavier, o verdadeiro pai da menina. Foi tudo muito difícil, aquele acidente de carro mudou sua vida para sempre.

Eles tinham acabado de se casar e estavam muito felizes com a gravidez de Cecília, a euforia era enorme e não hesitaram em comemorar logo que possível no lugar tão querido por Cecília, a Provance. Chegaram num final de tarde ensolarado, o perfume das flores invadia o interior do veículo, na estrada era possível avistar de longe uma ponte que eles passariam por debaixo para chegarem até a cidade, e na ponte eles podiam ver de longe a silhueta de um casal que aparentemente como eles estavam felizes se abraçando diante daquela paisagem maravilhosa. Um caminhão carregado de flores vinha na direção contrária na mesma estrada e como se o destino tivesse previsto, no momento em que eles passavam pela ponte, o caminhão se aproximava e o casal apaixonado na verdade estava discutindo violentamente quando a mulher despencou de cima da ponte caindo diretamente sobre o vidro do carro de Cecília e Xavier, mais precisamente sobre ele que estava dirigindo, ele perdeu a direção e bateu de frente com o caminhão.

Cecília só foi acordar no hospital atada a uma cama, sem marido, sem família, sem ninguém por perto, somente a sensação de perda daquele acidente horrível que levou seu companheiro, parte de seus sonhos e também seu olfato, sim Cecília não podia mais cheirar, sentir o perfume das flores, o cheiro de seu amado, de nada, mas assim era Cecília...

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